brasilnaeuropa

Xenofobia contra brasileiros na Europa: o que ninguém conta sobre viver longe de casa (e como cuidar da saúde mental nisso)

Você já sentiu aquele frio na barriga ao perceber que o sotaque brasileiro virou motivo de olhar torto? Ou escutou um “volta pra sua terra” no meio da rua, no trabalho ou até num atendimento médico? Se você é brasileiro expatriado na Europa, talvez essa cena não seja ficção. Ela faz parte do cotidiano de muita gente.

Eu sou Golbery Capistrano, psicólogo (CRP 11/05693) e, há alguns anos, atendo brasileiros que escolheram viver longe de sua terra natal, inclusive muitos que decidiram construir vida em Portugal, Alemanha, Espanha, França, Irlanda entre outros países europeus. Nos últimos anos, os relatos de xenofobia aumentaram de forma preocupante. Para falar a verdade, recentemente eu tenho me preocupado sobre essa questão na Europa também sob ponte vista político. De qualquer forma, não é só sobre “ficar chateado”. É sobre saúde mental, identidade, pertencimento e a capacidade de se sentir “em casa” longe de casa.

Independente de questões políticas, quero apenas fazer disso aqui um espaço de acolhimento e de reflexão. Vamos falar do que está acontecendo, do impacto emocional e, principalmente, de como lidar com isso de forma saudável.

O que está acontecendo de verdade

A comunidade brasileira é uma das maiores na Europa, especialmente em Portugal (centenas de milhares de pessoas). Em outros países, o número também cresce. Junto com a presença, cresceram os episódios de discriminação.

Relatos comuns incluem:

  • Comentários sobre o sotaque (“não quero ouvir essa língua”)
  • Recusa de atendimento ou tratamento diferenciado em serviços públicos e privados
  • Ofensas explícitas (“vá pra sua terra”, “brasileiro só vem para roubar”)
  • Dificuldades para alugar imóvel ou conseguir emprego por ser brasileiro
  • Agressões verbais e, em alguns casos, físicas

Em Portugal, dados oficiais e de organizações de apoio mostram aumento significativo de denúncias de xenofobia contra brasileiros nos últimos anos. Na Alemanha, o crescimento de crimes de ódio e o discurso anti-imigração também afetam brasileiros, mesmo quando a pessoa está regularizada e trabalhando. Histórias semelhantes aparecem na Irlanda, Espanha e França. Ocasionalmente se escuta falar de algum líder que defende que parte dos problemas da Europa envolve a expulsão de imigrantes.

Não é “exagero de brasileiro sensível”. É um fenômeno documentado, alimentado por discursos políticos de extrema-direita, herança colonial mal resolvida, preconceito linguístico e a ideia de que o imigrante “tira emprego” ou “não se integra”. Muitos brasileiros chegam falando a língua, com formação, pagando impostos e, ainda assim, são tratados como invasores.

O impacto psicológico que quase ninguém fala

Viver no exterior já exige adaptação emocional grande. Saudade de casa, mudança de rotina, distância da rede de apoio, clima diferente, burocracia… tudo isso já pesa. Quando se soma a sensação constante de ser “o outro”, o custo mental sobe muito.

Ao longo dos anos, em meus atendimentos escuto algo como:

  • Hipervigilância (“preciso me policiar o tempo todo para não ‘parecer brasileiro demais’”)
  • Isolamento social (evitar lugares ou conversas para não se expor)
  • Baixa autoestima e questionamento da própria identidade
  • Ansiedade e sintomas depressivos
  • Raiva que não encontra lugar saudável para sair
  • Sensação de não pertencer a lugar nenhum (nem lá, nem aqui)

Algumas pessoas começam a internalizar o preconceito: “será que eu realmente não deveria estar aqui?”. Outras ficam em estado de alerta permanente. Há quem mude o sotaque, evite falar português em público ou até esconda a nacionalidade. Isso cansa. E cansa muito.

Certa vez eu conversava com minha irmã sobre esse assunto. Ela, que vive na Alemanha há mais de vinte anos, já me falou de alguns de seus receios. E, mesmo após tanto tempo, já tendo marido e filhos naquele país, ela se percebe tratada como imigrante. Ao mesmo tempo, percebo o silêncio dela quando escuta alguém falar português. Ela observava antes de começar a se soltar um pouco mais. Comportamento semelhante eu percebo a partir dos relatos que chegam a mim.

A xenofobia não é só uma ofensa pontual. É um estresse crônico. E estresse crônico sem acolhimento vira problema de saúde mental.

Por que dói tanto (e não é “frescura”)

Ser tratado como indesejado atinge o que a psicologia chama de necessidade de pertencimento. Somos seres sociais. Quando o ambiente externo rejeita, o sistema de alarme interno dispara. Além disso, muitos brasileiros carregam a imagem de um país “quente, acolhedor, de gente boa”. Chegar e descobrir que essa imagem não protege do preconceito gera um choque de realidade doloroso. Algumas pessoas até percebem, a partir desse estranhamento, que eles são diferentes e que essa diferença que eles carregam dentro do peito é a marca da cultura brasileira.

Há também a questão da linguagem. Especialmente em Portugal, o português brasileiro é visto, em alguns contextos, como “errado” ou “inferior”. Isso toca em algo profundo: a língua é parte da identidade. Atacar o jeito de falar é atacar quem a pessoa é.

Como cuidar de si sem se endurecer

Não existe fórmula mágica, mas existem caminhos que ajudam:

  1. Nomear o que está acontecendo
    Chamar de xenofobia (quando for o caso) tira o peso do “será que sou eu que estou exagerando?”. Validar a própria experiência é o primeiro passo.
  2. Não carregar sozinho
    Conversar com outros brasileiros, grupos de apoio ou profissionais que entendem a realidade do expatriado faz diferença enorme. A solidão amplifica o sofrimento. Criar rede de apoio é fundamental.
  3. Escolher batalhas
    Nem toda provocação precisa de resposta. Às vezes o cuidado consigo é sair da situação. Outras vezes, denunciar é importante (e possível). Cada um decide o que é sustentável para si.
  4. Manter âncoras de identidade
    Continuar falando português com prazer, ouvir músicas brasileiras, cozinhar pratos de casa, manter contato com a família e amigos… isso fortalece o senso de quem você é.
  5. Cuidar do corpo e da rotina
    Sono, alimentação, movimento e contato com a natureza não resolvem a xenofobia, mas aumentam a capacidade de lidar com ela.
  6. Buscar espaço terapêutico
    Ter um lugar seguro para descarregar a raiva, a tristeza, a confusão e a saudade sem julgamento é precioso. A terapia online, especialmente com um profissional brasileiro que conhece a realidade de quem vive fora, permite trabalhar essas questões com quem realmente entende o contexto.

Um espaço possível de cuidado

Algumas das pessoas que atendo são brasileiros que moram na Europa. Alguns chegaram lá como na realização de um sonho. Outros, com o tempo, sofrem o desgaste de experiências de discriminação, solidão ou dificuldade de se sentir em casa. O que mais escuto depois de algumas sessões é: “aqui eu posso falar sem precisar medir as palavras”.

O atendimento online permite justamente isso: um encontro humano, com flexibilidade de fuso horário, em um espaço ético e confidencial. Não é sobre “superar” a xenofobia como se fosse um problema individual. É sobre ter um lugar onde a sua experiência é acolhida, onde você pode reconstruir o senso de valor e de pertencimento, e onde a saúde mental volta a ser prioridade.

Eu particularmente entendo que enfrentar sozinho dor, desconforto, desamparo é algo bem adoecedor. Tem sentimentos que ninguém deveria precisar ficar engolindo o tempo todo. Nosso corpo não aguenta suportar algumas dessas coisas por muito tempo e uma hora pode ser que o adoecimento chegue.

Se você está vivendo essa realidade, ou conhece alguém que está, saiba que não está sozinho. A dor é real. O cansaço é legítimo. E pedir ajuda também é.

Viver longe de casa já é um ato de coragem. Enfrentar preconceito no meio do caminho exige ainda mais. Você não precisa fazer isso sozinho. Ninguém precisa. Ninguém deveria.

Se quiser conversar sobre como está sendo a sua experiência no exterior, estou aqui.
Agendar uma conversa

Cuide-se.
Golbery

Compartilhe:

Veja também:

plugins premium WordPress