“…apesar de sua triste e repulsiva forma atual, Gregor era um membro da família, (…) em relação ao qual a família tinha o dever de engolir o asco e tolerar, nada mais que tolerar.”
Kafka publicou “A Metamorfose” (Die Verwandlung) em 1915. Eu li esse livro há pouco tempo e sei que ele é uma das obras mais influentes da literatura do século XX, abordando temas como desemprego, ansiedade do trabalho, solidão, abandono e dinâmicas familiares disfuncionais. Sobre spoiler, devo repetir: o livro é de 1915, nada seria exatamente uma novidade.
Ficha Técnica

Autor: Franz Kafka (1883–1924)
Ano de Publicação: 1915
Gênero: Novela / Ficção Absurdista
Personagem Principal: Gregor Samsa
Tema Central: Alienação no trabalho, solidão e rejeição social
O Enredo: A Transformação de Gregor Samsa
“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.”
A narrativa começa com a famosa premissa de Gregor Samsa, um caixeiro-viajante que acorda certo dia transformado em um inseto monstruoso (ungeziefer). O conflito inicial do protagonista não é o pavor de sua nova forma física, mas o pânico de se atrasar para o trabalho e falhar no sustento de sua família.
Gregor era arrimo de família. Ele sustentava o pai, a mãe e uma irmã. Diante de sua nova condição ele ficava apenas no quarto e dependia dos familiares para que a comida chegasse. Sua forma assustadora provocava repulsa naqueles que o viam.
À medida que a trama avança, seus familiares buscam novas fontes de renda. O pai volta a ser atendente em um banco, a mãe passa a trabalhar como costureira e a irmã passa a trabalhar como vendedora e até aprende taquigrafia.
Ainda assim, o dinheiro é insuficiente e a família decide alugar cômodos para algumas pessoas. Para tanto, Gregor é escondido. Ele ficava no quarto e não mantinha contato com os hóspedes. A rejeição, a repulsa, o cancelamento do contrato vem quando ele é descoberto.
A irmã: Greta Samsa
“Era ele um animal, já que a música o comovia tanto? Era como se lhe abrisse o caminho para o alimento almejado e desconhecido.”
De todos os familiares a sua irmã Greta Samsa é uma figura que merece um destaque. Ela é a figura familiar que se compadece dele. De algum modo oferece algum cuidado, traz comida e, de início, se esforça mais por Gregor. Greta toca violino e a música dela comove Gregor mesmo na condição em que ele está. Ela nem imagina mas, antes de sua metamorfose, ele havia pensado em pagar os estudos dela em uma escola de música.
Apesar disso, com o passar da história o desgaste de Greta também aparece e a família toda fica esgotada. O abandono chega em algum momento. O livro traz essa reflexão: o que resta de nós quando perdemos a utilidade?
A Solidão de Gregor Samsa
”Certamente não entendiam mais suas palavras, embora para ele elas parecessem claras, mais claras que antes, talvez porque o ouvido havia se acostumado.”
O que foi mais significativo para mim como leitor foi o peso da solidão de Gregor Samsa. Após sua metamorfose ele fica quase que o livro inteiro dentro de um quarto. Ele é deixado de lado pela família. Quando ele tenta falar, ninguém o compreende. Quando o vêem, as pessoas sentem repulsa. Ele é visto como um peso e, ao final, querem se livrar dele.
O livro traz esse amargor do que resta de nós quando perdemos a nossa utilidade social. Kafka me fez pensar na velhice, na depressão severa, em um adoecimento mais intenso. No final, alguém estará ao nosso lado? Quanto a Gregor Samsa a decisão do abandono veio junto com o seu fim.
“Então sua cabeça afundou sem que ele o quisesse e de suas narinas se desprendeu debilmente seu último suspiro.”
Análise Temática: Por que “A Metamorfose” ainda é Relevante?
Alienação e Burocracia: Gregor é reduzido à sua função produtiva. Quando deixa de produzir, perde seu valor humano perante a sociedade e a família.
Isolamento Psicológico: A incapacidade de comunicar seus sentimentos reflete o sintoma moderno da solidão urbana e do esgotamento emocional.
O Absurdo Existencial: Kafka trata uma premissa surreal com tom documental e frio, enfatizando como a rotina pode ser desumanizadora.
Carta ao Pai
Quando li o livro “A Metamorfose” alguém no Threads sugeriu que eu lesse também o livro “Carta ao Pai” do Franz Kafka. De fato, logo após a leitura de um eu segui para o outro livro. É impressionante como a obra “A Metamorfose” está conectada com a história de vida do autor relatada em “Carta ao Pai”.
Por esta razão, eu também recomendo a leitura desse outro livro em que Kafka descreve sua relação de medo e de pouca naturalidade com o próprio pai. Por ocasião da luz que este outro livro trouxe para saborear o Kafka, eu escrevi também uma resenha de Carta ao Pai e deixei aqui no blog.


